Categoria: Artigos
Data: 19/05/2026
(Texto republicado In Memorian no dia 19/05/2026, 12 anos de sua partida)
Nascido na cidade de Caicó – RN, em 26 de maio de 1930, filho de Seu Manoel Madalena e Dona Maria Hermínia, em uma família de 12 filhos, dos quais somente ele chegou a conquistar formação acadêmica, o Reverendo Faustino chega hoje ao fim de sua jornada, deixando para trás o legado de sua mulher e filhos, netos e bisnetos, e de sua influência cultural e religiosa por onde passou nesta terra.
Os idos de sua infância e adolescência foram os difíceis anos do pós Segunda Guerra Mundial e José, o 4º filho daquela grande família, viveu desde cedo a realidade do trabalho infantil. Fosse vendendo suspiros e doces caseiros no cinema, ou carregando “feiras” numa carrocinha de madeira, ou entregando pães quentes bem cedinho de manhã nas casas, ou caminhando quilômetros para buscar lenha para o fogão de tijolos da casa, ou fosse ajudando o pai, marchante, na feira, José e seus irmãos trabalharam muito. Porém José tinha algo não comum aos irmãos: sede de conhecimento e vontade de ler, de estudar. E essa sede, ou melhor, a busca por saciá-la, o lançou acima do destino comum que ronda as famílias pobres fadadas à simples aventura da subsistência.
José desde cedo gostava dos estudos. O pai, seu Manoel, homem bom, simples, porém rude, dizia que bastava a uma criança aprender a ler, fazer contas e ver as horas. Resistia em comprar material escolar – tabuadas, cadernos, lápis. Dona Hermínia, no seu desvelo materno, supria, meio que às escondidas, o mínimo necessário para manter todos na escola primária.
No fim dos estudos primários, nada mais restava aos filhos daquela gente. O ginásio só existia para os ricos, na capital. Pobres caíam na vida: com sorte, os rapazes poderiam servir ao Exército. Depois, aprender uma profissão e viver dela. Às moças estava reservado apenas se casar, ter filhos e cuidar da casa. José não serviu ao Exército. Aprendeu a profissão (rendosa na época) de alfaiate.
José conseguiu frequentar o ginásio que precariamente se instalou na cidade. Não perdia
uma aula, quando havia. Tornou-se leitor assíduo da biblioteca municipal na pequena Caicó. Ia pra lá praticamente todas as noites e só saía quando a luz, de motor, dava o sinal de apagar. Ali, leu todos os clássicos da literatura disponíveis, sob o olhar austero de uma senhora sisuda que tomava conta do lugar.
José, contudo, não era assim um nerd. Gostava da boemia. Com sua voz melodiosa fazia locuções na rádio local, cujas bocas espalhavam-se pelos postes da cidade. Cantava e recitava em serenatas, tocando violão. Gostava de se vestir bem e era usual vê-lo, na juventude, em um alinhado terno de linho branco em sapato branco com bico de chocolate – o fino da elegância. Namorador, assediado pelas donzelas, José dispunha do dom da oratória a seu favor e de um irresistível carisma pessoal, dons estes que o diferenciavam nos meios onde transitava. Católico fervoroso, cumpria os ritos, desde a crisma, primeira comunhão, missas, novenas e penitências. Tornou-se ajudante das missas e anunciante dos eventos da igreja da Conceição, queridinho do padre, Monsenhor Gurgel. Um dia perguntou ao padre: “Padre, ninguém sabe se será salvo, nem o Papa?”. “Não, meu filho. Nem mesmo o Papa sabe se está salvo”. Aquilo o deixou muito perturbado.
Um dia, em meados de 1948, passando casualmente em frente à Igreja Presbiteriana de Caicó, fundada pelos “americanos”, José teve um impulso e entrou abruptamente, sentando-se no primeiro banco. Logo alguém lhe passou a “revista” e ele acompanhou o estudo. Ficou maravilhado. Logo tornou-se “crente”, como se dizia, e nunca mais deixou a igreja “protestante”, como era chamada então.
Por esses tempos José havia arruinado a sua vida de boemia, quando conheceu, apaixonou-se e finalmente casou-se com Francisca, carinhosamente chamada de Preta, a jovem linda que morava na casa do Senador Dinarte Mariz. Preta também foi à igreja protestante e lá ficou com seu marido. Casaram-se, então, no civil antes que pudessem ser batizados na nova fé.
Em pouco tempo José assumiu naturalmente posição de liderança, influência e destaque na igreja. Decidiu ir para o Seminário e teve que aguardar por longos 6 anos até que o SPN (Seminário Presbiteriano do Norte) em Recife, abrisse vaga para casados. Finalmente, em fevereiro de 1954, aos 24 anos e já pai de uma filha, José chega a Recife, de onde sai formado em fins de 1957, com mais dois filhos. No seminário José pôde mostrar toda sua competência e matar sua sede de saber, ganhando vários prêmios por obter sempre, em todos os anos, as notas mais altas e por ter o maior volume de leitura na biblioteca da casa.
Desde sua formatura em dezembro de 1957 José caiu em campo. Peregrinou pelo sertão nordestino, nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Ceará, viajando de jipe ou no teco-teco pilotado pelo missionário Donald Williams, como obreiro da Missão Presbiteriana no Brasil, pregando o Evangelho, até terminar no Maranhão, onde trabalhou em Coroatá, Lima Campos, Pedreiras, Imperatriz, e São Luís, onde finalmente radicou-se. Ao longo de sua jornada fundou diversos trabalhos, pregou milhares de vezes, fez séries de conferências, traduziu livros, ministrou cursos, celebrou casamentos, cultos de formatura, batizou e oficiou cerimônias fúnebres de inúmeras pessoas. Morou em mais de uma dezena de cidades diferentes e nelas, ao todo, mudou-se mais de 40 vezes de casa. Teve 10 filhos com a esposa Francisca, dos quais dois morreram na infância e uma aos 56 anos – Marise – a primeira que nasceu no seminário em Recife (falecida em maio/2011).
Em São Luís o Rev. Faustino foi o primeiro pastor nacional da Igreja Presbiteriana do Calvário (originalmente IP do Caratatíua), fundada pelos americanos, e gerenciou a construção do seu templo. Pastoreou a Igreja Presbiteriana de São Luís (IPSL) por 13 anos, de 1975 a 1988. Exerceu liderança nos concílios regionais da IPB por longos anos. Participou da organização de vários trabalhos Presbiterianos na capital e no interior do Estado. Inspirou, com sua dedicação, carisma e erudição, muitos jovens ao ministério e foi responsável pelo patrocínio da igreja à formação teológica de mais de uma dezena deles no SPN em Recife, a maioria dos quais está militando no campo evangélico por todo o Brasil até hoje.
Homem erudito, porém simples. Sábio, porém humilde. Carrancudo, porém acessível, fez muitos amigos. Íntegro, correto, justo, confiável, leva ao túmulo milhares de segredos que lhe foram confiados em confissões e aconselhamentos. Pai amoroso, esposo fiel e dedicado. O Rev. Faustino viveu como servo do Deus a quem conheceu, amou e conviveu toda a sua vida. Crente na esperança de sua salvação, propagador ímpar dessa fé, agora descansa nos braços de Jesus, a quem sempre amou e a quem dedicou seus melhores anos.
Deixa sua querida Francisca, a quem amou e de quem cuidou e por ela foi cuidado por tantos anos. Deixa filhos, genros, noras, netos e bisnetos saudosos, todos agradecidos pelo seu legado de vida, um testemunho de que é possível viver honesta e santamente.
Ao Rev. Faustino, nosso último adeus e um até breve.
São Luís, 19 de maio de 2014
Faustino Junior